A existência de conteúdos em determinada mídia, que dialoguem com tópicos da ciência e tenham direcionamento a um público específico, é uma condição necessária, mas não suficiente para se realizar Divulgação Científica (DC).
Nesse viés teríamos (tal como já temos) um montante de textos, áudios, vídeos, softwares produzidos para este fim, mas que por diversas razões não alcançam seu público-alvo (que às vezes, tampouco sabem que existem ou onde encontrá-los).
Partindo das definições de Bessa (2015), Bueno (1984, p.19), Dias et al. (2013), Camargo (2015) e Caldas e
Zanvettor (2014 p. 5), a DC se trata de tornar a ciência de domínio público, ou seja, o uso de estratégias e práticas, que visa levar a informação científica para a sociedade. Mas esta informação não deve ser composta apenas por resultados das pesquisas científicas, comuns em artigos científicos, ou por apresentações dos últimos fatos científicos, comuns em veículos jornalísticos.
A DC deve também apresentar como a ciência é feita e construída, ou seja, deve incluir recursos para o
entendimento de conceitos científicos simples e complexos, discussões sobre assuntos, decisões e
políticas públicas que impactam a sociedade, além de explicar como se dá as etapas, o tempo e o
funcionamento da ciência, considerando as particularidades de cada área de estudo, veículo de
comunicação e público que receberá a informação.
Portanto, a partir de sua própria definição, não podemos supor que se baste a produção do conteúdo, para que, de fato, seja considerada DC, também é preciso que contemple estratégias e ações que veiculem este conteúdo. Para ilustrar o trabalho destas duas frentes (produção de conteúdos e veiculação de conteúdos), apresentamos um relato sobre a DC realizada através do blog Zero.
O Zero encontra-se hospedado no projeto Blogs de Ciência da Unicamp, e procura relacionar o formalismo matemático à ludicidade. Seu público-alvo são adultos que tenham afinidade com matemática e computação, possibilitando o desenvolvimento de discussões mais avançadas e articuladas com várias temáticas.
A intenção de comunicação deste blog, visa textos com leituras estimadas entre 5 a 10 minutos, e que, conforme Mora (2003, p. 99) “desperte o interesse do público” e não somente motive o interesse no esclarecimento de dúvidas relacionadas às técnicas ou conceitos da matemática, tais como poderiam ser feitas em livros-textos específicos da área. Para exemplificar esta intenção, vale citar que a postagem do Zero com mais visualizações até hoje, faz um paralelo entre o ciclo de vida de um vírus contagioso e a progressão de um apocalipse zumbi modelado por cadeias de Markov.
A veiculação do conteúdo deste blog não se resume ao convite para leitura do texto em veículos de comunicação, elas já se iniciam na própria construção do conteúdo, como, por exemplo, o papel das tags e categorias nos algoritmos de buscas utilizados na internet, assim como a escolha do título do texto, da imagem de capa e do resumo, e como isto pode despertar o interesse (ou não) de um público em potencial.
Temos também o próprio layout do blog como um aspecto que deve estar de acordo com o seu público, no caso do Zero, procuramos assemelhar seu visual às telas de comandos dos computadores (fundo preto sem detalhes, letras brancas e verdes). Outros aspectos dizem respeito às datas de postagens e às estratégias de compartilhamentos. Pois compartilhar compulsoriamente em redes sociais além de não garantir o seu alcance, pode levar ao bloqueio da conta.
A escolha por uma data para divulgar um conteúdo também pode proporcionar o aumento desse alcance, como ocorreu logo após o sucesso da série Gambito da Rainha, no qual um texto sobre xadrez, já publicado alguns meses antes, foi escolhido para ser divulgado entre o público que assistiu à série e obteve naquele período, um alcance tão grande quanto os textos de outros blogs da rede que tratavam tópicos da pandemia. Já o planejamento da divulgação e veiculação do conteúdo, acontece em parceria com a equipe administrativa do projeto Blogs de Ciência da Unicamp.
Além das divulgações de canais pessoais dos pesquisadores autores das postagens, os conteúdos também são veiculados nos canais oficiais do projeto e nas sugestões de canais de imprensa, como o próprio Jornal oficial da Universidade, por exemplo.
O resultado dessa ação conjunta é percebida nos números de acesso ao conteúdo colocado no Zero ao longo de sua existência: de 30 de maio de 2019 (momento em que o número começou a ser contabilizado) a dezembro de 2019 houveram 3.459 acessos, em 2020 foram de 49.721, em 2021 98.814 e de janeiro de 2022 até a data da escrita deste relato de experiência (18/07) foram de 58.340 visualizações.
A experiência do Zero – Um blog de divulgação científica
Erica Mariosa Moreira Carneiro
Marcos Henrique de Paula Dias da Silva
Universidade Estadual de Campinas – Unicamp
Texto original: https://edicc2022.labjor.unicamp.br/2018-2/caderno-de-resumos/ https://edicc2022.labjor.unicamp.br/wp-content/uploads/2022/09/Caderno-de-Resumos-completo.pdf